O Cary Grant de Cada Dia #14 - My Favorite Wife
Escrito por Leo McCarey, “My Favorite Wife”, de 1940, tenta repetir o sucesso de “The Awful Truth”, reunindo novamente Cary Grant e Irene Dunne. Desaparecida por sete anos e declarada morta em um naufrágio, Ellen (Irene Dunne) retorna à casa para reencontrar os filhos que já não se recordam dela e seu marido Nick (Cary Grant) recém-casado com outra mulher.
É difícil assistir ao filme sem lembrar da tentativa de refilmagem feita em 1962, com Marilyn Monroe e Dean Martin, “Something’s Got to Give”. O filme foi o último de Marilyn Monroe e, apesar de não ter sido concluído, há algumas cenas muito bonitas disponíveis no documentário “Marilyn Monroe: The Final Days”. Nestas cenas, há na atuação de Marilyn Monroe uma tristeza que não existe na performance de Irene Dunne; a tristeza de uma mulher completamente deslocada, quase que expulsa da própria vida, misturada a uma doçura de quem poderia ser aceita novamente sem qualquer tipo de rancor - tais traços combinados formavam uma espécie de benevolência que era característica dela, evidente ainda mais em “The Misfits”, de John Huston. Irene Dunne é, sem dúvida, uma grande atriz, tecnicamente melhor do que Marilyn Monroe, é claro, mas havia em Marilyn uma vulnerabilidade que a tornava realmente memorável.
Em “My Favorite Wife”, Cary Grant cumpre uma função parecida com a de “Bringing Up Baby”; ele fica, por uma grande parte do tempo, sem jeito e sem palavras, apenas reagindo aos esquemas de Irene Dunne para forçá-lo a contar a verdade para a atual esposa. É mais fácil (e mais agradável) acreditar em um Cary Grant mais ativo, mais esperto. Apesar dele ser adorável de qualquer forma, ele é ainda mais encantador quando dá sinais, dos mais sutis aos mais evidentes, de seus sentimentos e torna-se mais decidido, menos confuso.
No filme está também Randolph Scott, como o companheiro de Irene Dunne nos sete anos em que ela ficou presa em uma ilha deserta, o que alimenta o ciúmes e a confusão temporária de Cary Grant. É estranho observar os dois em cena pois muitos são os rumores entre Randolph Scott e Cary Grant. Fato é que eles moraram juntos por anos. Alguns afirmam que eles mantinham relações sexuais, outros dizem que isso é um absurdo. Se eram apenas amigos ou não, o próprio Cary Grant, em entrevista com Peter Bogdanovich, disse que não tinha nada contra os gays, mas que ele simplesmente não era um deles - algo que me faz pensar no episódio de Seinfeld em que suspeitam de sua amizade com George.
Em alguns casos, os rumores se confirmam e se tornam fatos concretos, como com Rock Hudson, por exemplo. Em outros, permanecem apenas como rumores. Há, é claro, uma tendência de transformar tudo aquilo que é admirável ou simples em algo corrupto, complexo, como acusar John Wayne de racista ou xenofóbico (e não, ele não era).