O Cary Grant de Cada Dia #13 - His Girl Friday

Em “Kill Bill Vol.2”, quando Bill surpreende a Noiva no ensaio de seu casamento e pede para conhecer seu futuro marido, dizendo “eu gosto de saber com quem minhas garotas se casam” é em referência ao filme dirigido por Howard Hawks, “His Girl Friday”, de 1940. Esta não é a única similaridade. Rosalind Russell é Hildy, uma jornalista talentosa atrás de uma nova vida, longe do jornalismo e do seu ex-chefe (e ex-marido) Walter, interpretado por Cary Grant. Para tal, ela planeja se casar com Bruce, personagem de Ralph Bellamy (ele de novo), e se mudar para Albany, onde poderá cuidar das tarefas domésticas do lar e ter bebês. Mas, ao saber do casamento, Walter faz de tudo para atrapalhar o relacionamento de Hildy com Bruce e, ao mesmo tempo, seduzi-la de volta ao jornalismo, sua verdadeira paixão.

Em “Kill Bill”, a personagem da Uma Thurman foge para viver como uma pessoa comum e não uma exímia matadora de aluguel, mas Bill faz com que ela reconheça sua verdadeira essência ao abraçar a vingança que ele mesmo provocou. Tal vingança prova que ele estava certo, ela jamais poderia se casar com Tommy e trabalhar em sua loja de discos como uma qualquer; ela era, de fato, uma assassina por natureza e jamais poderia fugir disso. Em “His Girl Friday”, Walter faz com que Hildy cubra uma última história para o jornal, o que provoca uma série de situações que permitem com que seu verdadeiro talento se manifeste e, assim, eles acabam se aproximando; porque são, afinal, irremediavelmente iguais.

Howard Hawks fez “His Girl Friday” para tentar superar “The Awful Truth” do Leo McCarey. É, sem dúvida alguma, um filme maravilhoso, mas eu ainda prefiro “The Awful Truth”. A situação é parecida; uma mulher que precisa basicamente escolher entre o Cary Grant e o Ralph Bellamy. Um representa uma vida divertida, agitada, até perigosa; o outro representa a calma, a inocência, uma vida acomodada. Há em “His Girl Friday”, porém, mais forte do que em “The Awful Truth”, a questão da natureza da mulher em particular. Rosalind Russell é naturalmente um “homem da imprensa” (seu papel era, na peça que deu origem ao filme, masculino) e por mais que ela deseje calma e acomodação, sua personalidade simplesmente não permite tal circunstância; ela precisa estar onde está a notícia, ela precisa fazer parte dela. Ela não pode negar a própria natureza, ela tem de escolher o Cary Grant.

Hildy é uma mulher forte, mas crível, como não se vê nos filmes atuais. No final do filme, quando Walter se despede dela e, depois, atende o telefonema de Bruce, preso pela terceira vez graças às tramóias de Walter, ela começa a chorar - não porque suas chances com Bruce foram mesmo arruinadas, mas porque ela tinha pensado que Walter estava mesmo se despedindo dela e que não tinha mais nada planejado para atrapalhar seu casamento com Bruce. É a primeira vez que Walter vê Hildy chorando, e gosto de imaginar que tenha sido a única.