O Cary Grant de Cada Dia #12 - Holiday

Agora sim. George Cukor, Katharine Hepburn e Cary Grant se reúnem novamente em “Holiday”, de 1938, e o resultado é muito, mas muito melhor do que o obtido com “Sylvia Scarlett”. Distribuído no Brasil sob o título peculiar de “Boêmio Encantador”, Cary Grant interpreta Johnny, um homem de origens pobres, mas que trabalha desde os dez anos com o intuito de se aposentar aos trinta para assim aproveitar a vida enquanto ainda é jovem. Durante as primeiras férias de sua vida, ele se apaixona por Julia e pretende se casar com ela. Mas, retornando das férias, ele descobre que ela é extremamente rica e que ela, contrariando seus desejos, tem planos específicos para a sua carreira. Se sentindo deslocado na mansão de Julia, Johnny logo se identifica com sua irmã Linda, interpretada por Katharine Hepburn, que se apresenta como a ovelha negra da família.

Linda é uma artista frustrada pelo pai, um banqueiro que vive conforme os padrões da alta sociedade. Ela não vai à igreja aos domingos, detesta as grandes festas que o pai promove, e é famosa pelo seu temperamento difícil. Seu irmão Ned também vive infeliz sob as regras do pai. Com um dom natural para a música, mas forçado a abandonar sua paixão, ele se entrega ao alcoolismo para esquecer seus pesares. Apenas Julia parece contente com o modo de vida que seu pai conquistou para sua família e ela exigirá o mesmo de Johnny. Johnny, por sua vez, é completamente franco, diz que não vê sentido em ter muito dinheiro, apenas o suficiente para viver, chama a mansão de quatro andares da família de museu e, sempre que se sente nervoso, dá uma pirueta ou uma cambalhota. Linda compreende Johnny como ninguém e logo se apaixona por ele, mas teme, é claro, atrapalhar o casamento de sua irmã.

“Holiday” é um filme bonito, com um amor proibido tão angustiante (e tão compreensível), mas que trata principalmente das escolhas que fazemos em vida, se optamos por perseguir nossas paixões, por mais inseguras que sejam, ou se optamos por nos acomodar em um modo de vida mais estável e conformado. Para ambas escolhas, há conseqüências; as dificuldades de se conseguir prover a vida que desejamos para nós mesmos ou, então, o peso de carregar diariamente todos os nossos anseios frustrados e ter de conviver com eles. O filme não diz que uma escolha é certa e a outra é errada; Julia faz a que melhor lhe cabe. Linda faz a sua (e ela escolhe, obviamente, a pirueta).