O Cary Grant de Cada Dia #11 - Bringing Up Baby
Posso cometer um sacrilégio? Não gosto tanto assim de “Bringing Up Baby”. Hoje em dia, quando mencionam Cary Grant, além dos filmes dirigidos por Hitchcock, é um dos primeiros a ser lembrado, mas eu simplesmente não gosto muito de “Bringing Up Baby”. Dirigido por Howard Hawks em 1938, é uma comédia sobre um zoólogo (Cary Grant) sendo importunado de todas as formas possíveis pela personagem da Katherine Hepburn e o seu leopardo de estimação.
Acho que o que me incomoda no filme é o fato do Cary Grant representar um personagem quase monótono, que não sabe se divertir até encontrar a Katherine Hepburn. Se em “The Awful Truth”, Irene Dunne tem de escolher entre a vida sossegada no interior representada pelo personagem simplório do Ralph Bellamy e a vida agitada e divertida de Nova Iorque representada pelo próprio Cary Grant, em “Bringing Up Baby” o Cary Grant representa a vida tediosa de um estudioso controlado pela noiva e pelo trabalho, e este é o verdadeiro sacrilégio para mim. Se fosse ao contrário, se fosse o Cary Grant o personagem maluco e a Katherine Hepburn a personagem “normal” (não que ela não representa malucas adoravelmente) acho que eu sentiria menos desconforto.
Há, é claro, desconfortos que vêm para o bem. Em “Suspicion”, Cary Grant interpreta um vilão (muito antes de Leone chamar Henry Fonda, o típico mocinho, para fazer o malvado em “Once Upon a Time in the West”). Mas, no caso de “Bringing Up Baby”, o desconforto de ver o Cary Grant em um papel tão diferente da sua persona mais comum só diminui, para mim, o prazer da experiência. As cenas em que o Cary Grant não consegue falar, porque a Katherine Hepburn simplesmente não deixa, são muito engraçadas, mas, por Deus, é o Cary Grant, poucas pessoas na história do cinema falavam tão bem quanto ele ou tornavam as falas tão engraçadas, deixem que ele fale, ou arrumem outro ator.
“Bringing Up Baby” é quase como “Blade Runner”, um fracasso em sua época, mas um fenômeno com o tempo. Por causa de “Bringing Up Baby”, Howard Hawks foi demitido de seu próximo filme na RKO (que seria “Gunga Din”) e Katherine Hepburn, quase como o que Nicole Kidman é hoje em dia, foi considerada como “box office poison” (“Sylvia Scarlett”, também com Katherine Hepburn e Cary Grant, também foi um fracasso de bilheteria). É compreensível se levarmos em conta que em 1938, Cary Grant não era um qualquer e vê-lo como secundário possa ter irritado as pessoas na época, da mesma forma que me irrita hoje. Mesmo assim, não é um filme ruim como “Sylvia Scarlett”, vale a pena ver, mas não se enganem, não é tudo isso.