O Cary Grant de Cada Dia #10 - The Awful Truth

“The Awful Truth”, de 1937, não é somente uma das minhas comédias favoritas ou um dos meus filmes favoritos com o Cary Grant, mas um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Indicado a cinco Oscars e vencedor de Melhor Diretor para Leo McCarey, é um filme simples, mas genial, sobre um casal em processo de divórcio.

Quando o casamento de Jerry e Lucy (Cary Grant e Irene Dunne) é ameaçado por suspeitas de infidelidade, eles resolvem se divorciar. No tribunal, eles brigam pela custódia de Mr. Smith, cachorro do casal. Após uma certa artimanha de Lucy, o juiz estabelece que Mr. Smith fique com ela, mas concede a Jerry o direito de visitá-lo ocasionalmente. Durante uma de suas visitas, Jerry encontra Lucy com outro homem, um caipira de Oklahoma, interpretado por Ralph Bellamy, com quem ela decide se casar assim que o seu divórcio for concluído. Jerry, então, também começa a sair com outras mulheres, na esperança de que possa seguir com sua vida também. Mas a cada encontro do antigo casal, apesar deles nunca dizerem, fica claro que eles ainda se amam.

O verdadeiro tema (e estilo) do filme é o subtexto. As piadas não são óbvias e muitas vezes elas só se completam com algum esforço imaginativo do espectador para entender o que determinado olhar, gesto ou comentário realmente significam  não que seja difícil, mas uma pessoa que assista ao filme distraída, ou alguém que simplesmente não preste muita atenção em determinadas expressões ou entonações, não conseguirá ver graça nos diálogos. Não é um bom filme para quem tem Síndrome de Asperger.

Além disso, o subtexto coloca todo o filme em ação. Quando Lucy chega em casa com outro homem e ela explica que o seu carro quebrou no meio da estrada e que eles tiveram de passar a noite em uma pousada, Jerry pressupõe que eles são amantes e que estavam juntos. Ele nunca os acusa claramente disso, apenas sugere, e tudo isso leva os dois ao tribunal. Da mesma forma que insinuações ferem a reputação de Lucy com a mãe do caipira, sua futura sogra, insinuações também ferem a reputação de Jerry com a família de sua noiva, quando Lucy se passa por sua irmã em uma cena divertida.

No filme, e na vida real, as pessoas dificilmente dizem o que querem dizer e o que realmente sentem. Em “The Awful Truth”, tudo ocorre graças a suposições, insinuações; ninguém nunca diz claramente o que pensa e, assim, todos entendem o que querem, quando entendem. O único a compreender o absurdo disto é o caipira, chateado por ver Lucy e Jerry brigando, ele pergunta se ela ainda sente alguma coisa por ele, ela fica surpresa e pergunta se ele não viu o modo como ela tinha tratado Jerry e ele responde, “por isso mesmo.”

Em nenhum momento do filme o casal diz “eu te amo”. No final, da mesma forma que tudo começou, eles também se entendem por subtexto. Mas o espectador, se tiver sorte, vai saber interpretar corretamente.

P.S.: Outra coisa que o filme não diz, mas que fica bastante claro; cachorros são legais, gatos são demônios.