O Cary Grant de Cada Dia #8 - Only Angels Have Wings
Escrever, ou comentar, sobre filmes ruins é relativamente fácil e, até certo ponto, divertido. Você tem uma certa permissão para abusar de metáforas não muito coerentes ou de hipérboles ligeiramente injustas. Mas falar sobre filmes bons é que é difícil de verdade, pois a mera qualidade estabelece uma necessidade de descrever com precisão o porquê do filme ser tão bom, e de dizer algo que esteja, se possível, à altura da obra ou, ao menos, prestando serviço a ela.
Tenho a impressão de que é mais fácil reconhecer e explicar aquilo que é ruim do que reconhecer e explicar aquilo que é bom. Talvez porque somos tomados por um arrebatamento que torna difícil de se analisar objetivamente. Para um rosto bonito, há infinitas proporções que absorvermos como quem ouve uma música em um idioma desconhecido. Apreciamos, mas não entendemos. Enquanto que a feiúra é facilmente compreensível, seus traços são facilmente apontáveis. (Há exceções, é claro. Algumas pessoas são tão feias, mas tão feias, que provocam tanto arrebatamento quanto uma pessoa maravilhosa. Sempre achei o Klaus Kinski, por exemplo, de uma inexplicável e divina feiúra. Mas estou mudando de assunto.)
Falar, portanto, de um dos melhores filmes de um dos melhores diretores (e com um dos melhores atores, é claro) é bastante difícil. De 1939, “Only Angels Have Wings”, dirigido pelo Howard Hawks, lida com vários assuntos; amizade, confiança, honra, sacrifício, etc., tudo com a aviação como tema de fundo. Cary Grant interpreta um piloto e gerente de uma pequena companhia aérea na cidade portuária de Barranca. Seus pilotos têm a difícil tarefa de voar sob quaisquer condições, cruzando as montanhas dos Andes, para levar correspondência, auxílio médico para lugares isolados, ou o que mais for necessário. Não há espaço para o medo e, quando um piloto se acidenta, também não pode haver espaço para o pesar porque logo outro vôo precisa ser realizado.
É neste ambiente que a personagem de Jean Arthur chega, onde ela logo presencia o acidente de um dos aviões da companhia e fica chocada com a frieza com que os pilotos lidam com a morte do colega, comendo e bebendo como se nada tivesse acontecido. Ela não entende que tal comportamento é necessário para poderem continuar trabalhando, ou mesmo vivendo. O personagem do Cary Grant explica a ela que todo seu sofrimento não vai desfazer o que aconteceu e a coloca praticamente de castigo até que ela se sinta melhor e pare de aborrecer todo mundo. Conversando com outro piloto, ela pergunta porque ele gosta tanto de voar, ele diz que consegue pensar em um milhão de motivos, nenhum que faça muito sentido, e ela, então, se lembra do pai, um trapezista que não usava rede de segurança e que acabou morrendo por isso. Como se recordasse de que algumas paixões têm de ser irremediavelmente levadas às últimas conseqüências, ela retorna ao bar e começa a tocar uma música animada no piano acompanhada da banda local, como se esquecesse também do acidente.
Há, no filme, a belíssima noção de que se vivemos em um mundo perigoso, em que corremos riscos constantes e precisamos, além de simplesmente sobreviver, tratar das nossas próprias feridas e das nossas próprias memórias, devemos pelo menos viver pelos outros, aliviar as cargas do outros, pois sabemos o quanto que a nossa é pesada. Se alguém morre, é preciso engolir o próprio sofrimento para não acentuar o sofrimento dos outros. O conflito disto está no fato que tal comportamento, por mais que esteja voltado para o bem dos outros, acaba provocando um distanciamento ou mesmo uma aparente dureza que afasta as pessoa, que causa ainda mais sofrimento. Tal é a complexidade que não percebemos de cara, mas que garante a qualidade do filme, do roteiro, de seus personagens, que faz com que eles sejam mais críveis.
Cary Grant explica à Jean Arthur que ele não pode pedir que ela fique com ele, que ele jamais pediria isso a uma mulher. Por quê? Porque ele não pode submeter ninguém que ele ame ao sofrimento de vê-lo se arriscando diariamente. É algo que ele faz para o bem, apesar de provocar um mal, pois Jean Arthur quer que ele a peça para ficar e ela só vai ficar se ele baixar a guarda, se ele se mostrar vulnerável, e pedir para ela ficar. Mas não se preocupem, ele dá um jeito de pedir que ela fique, sem perder a pose.