O Cary Grant de Cada Dia #7 - She Done Him Wrong
Qualquer um que não conheça Nelson Rodrigues muito bem acaba concordando com a opinião geral, propagada desde a década de 60, de que ele era um pervertido, um depravado, e que suas obras lidam basicamente som sexo e nada mais. Lendo meia dúzias de suas crônicas, ou nem tanto, já é possível perceber que trata-se justamente do oposto; que Nelson Rodrigues era, na verdade, moralista e que escrevia sobre sexo não porque o ato fosse banal ou comum, mas porque era tão precioso, tão importante que se tornava até perigoso se não o respeitássemos como tal. Os riscos do sexo não residem somente no campo da saúde, da integridade física da pessoa, mas na integridade emocional ou mesmo moral. Além disso, não há apenas o dano que você mesmo se provoca, mas o dano que você provoca aos outros. O sexo, mesmo quando as pessoas que estejam praticando não saibam disso, é sempre uma promessa.
“She Done Him Wrong”, de 1933, é o segundo filme com a Mae West que eu vejo na vida. Foi, na verdade, o primeiro que ela fez com o Cary Grant. Posso dizer que eu não conhecia muito de Mae West antes de começar este projeto, apenas as frases mais famosas como, “isso é uma arma no seu bolso ou você está feliz em me ver?” Achava então, na minha santa ignorância, que Mae West era basicamente o mesmo que pensam do Nelson Rodrigues, ou seja, sexo e nada mais. Mas estou começando a ver que não é bem assim. Talvez eu esteja enganada e devesse assistir mais filmes com ela (aliás, não são apenas filmes “com” ela porque Mae West também é roteirista, trata-se, então, de filmes “dela”) para entender um pouco melhor. Mas se é possível notar a veia moralista de Nelson Rodrigues em menos de meia dúzia de crônicas, talvez dê para perceber algo de significativo em dois filmes da mesma autora.
No filme, a personagem de Mae West tem nada menos do que cinco “pretendentes”. O dono do bar no qual ela se apresenta, o amigo invejoso do dono, um ex que foge da cadeia para ir atrás dela, um russo e o Cary Grant. Todos, com exceção do Cary Grant, são criminosos ou fazem ameaças caso ela não os favoreça ou ambos. Durante o filme, duas pessoas tentam matá-la, um dos pretendentes porque se descobriu traído e uma mulher que foi traída graças a ela. Tais sãos perigos da libertinagem, do sexo. Claro, o filme mostra tais perigos de forma exagerada, mas um exagero diluído tem ao menos um pingo de verdade. Um dos personagens diz à Mae West que ela não pode provocar todos os homens e não querer conseqüências depois. Exatamente. A liberdade de conduta, a liberdade do sexo tem conseqüências que nem sempre levamos em conta. Na vida real, o risco não é tanto homicídio (apesar de acontecer) mas um puro, simples e desnecessário coração partido.
No fim do filme, depois que todos são presos, resta o Cary Grant. Não vou revelar detalhes de como a trama se desenvolve até este momento, mas há uma cena bonita em que o Cary Grant começa a retirar todos os anéis de diamante que Mae West recebeu de presente dos seus pretendentes, deixa sua mão nua e, então, coloca nela um anel de noivado, dizendo que será seu carcereiro por um longo tempo, já que ela é uma menina tão malvada. E, assim, é possível ser “malvada” sem nenhum problema. E, assim, eu também quero ser presa.