O Cary Grant de Cada Dia #4 - Suzy

Talvez sejam os hormônios, mas meus olhos lacrimejaram um pouquinho quando Jean Harlow, esperando a improvável visita do Cary Grant, se sentou ao piano e começou a cantarolar tristemente “Did I Remember? (To Tell You I Adore You)”. Filme de 1936, “Suzy” tem Dorothy Parker como um de seus roteiristas e tal cena é realmente digna do seu universo; a garota que espera por alguém que nunca chega, por alguém que não se preocupa em telefonar, que não se interessa em escrever.

Como alguns dos contos de Dorothy Parker, “Suzy” também tem a guerra como pano de fundo, mas o foco está no sofrimento, na generosidade e na lealdade da personagem da Jean Harlow. Tentando fazer sucesso nas casas de show de Londres, Suzy conhece um engenheiro e inventor que a pede em casamento, mas ele é baleado por uma espiã às vésperas da guerra. Acreditando que ele fora morto e com medo de ser incriminada, ela foge para Paris. Lá, ela se casa com um famoso piloto da aeronáutica, interpretado por Cary Grant, que é logo enviado para a guerra. Suzy, então, passa os dias cuidando do sogro, inventando cartas ao pai que o filho nunca escreveu, e aguardando o seu retorno – até descobrir não só que o noivo londrino está vivo como também que o atual marido tem um caso com a mesma espiã que atirou no engenheiro.

Diferente de outro filme que é infinitamente melhor, mas que também tem a guerra como cenário, e também tem um triângulo amoroso, “Casablanca” dá mais atenção ao suspense da trama, o que torna o romance ainda mais urgente. Não há este cuidado em “Suzy”. Há, é verdade, uma cena até que bacana com uma perseguição de aviões, tirada das próprias filmagens de Howard Hughes, mas é uma cena breve.

Mesmo assim, há ainda um outro detalhe interessante no filme, algo de “Dark Knight” ou de “The Man Who Shot Liberty Vallance”, pois Suzy tenta cobrir as indiscrições do marido e conservar sua imagem, já que ele representa um símbolo nacional e é respeitado inclusive pelos inimigos. Em alguns casos, a aparência importa e vai muito além dos interesses pessoais.