O Cary Grant de Cada Dia #2 - Blonde Venus

Nas “Crônicas de Nárnia”, C. S. Lewis descreve a experiência de visitar um lugar que pareceria tão mais real que toda a experiência de vida até aquele momento se tornaria opaca em comparação; as luzes seriam mais brilhantes, as cores seriam mais fortes, e objetos comuns seriam mais sólidos, mais presentes. Quando vi Marlene Dietrich pela primeira vez, em “O Anjo Azul”, fiquei com a impressão de que ela era um pouco mais real do que a realidade, que as suas expressões e os seus movimentos, por mínimos que fossem, tinham mais consistência, mais efeito do que tudo que eu já tinha visto. Isto também se aplica à atuação dela em “Blonde Venus”.

De 1932, dirigido por Josef von Sternberg, mesmo diretor de “O Anjo Azul”, o filme tem uma fotografia lindíssima e alguns números musicais obrigatórios (é daqui que surgiu a inspiração para a cena da Uma Thurman como Hera Venenosa, no lamentável “Batman & Robin”, em que ela aparece vestida de gorila). Marlene Dietrich interpreta uma cantora de cabaret que abandona a profissão após se casar e ter um filho, mas o seu marido adoece e ela se vê forçada a voltar a se apresentar para ganhar dinheiro. No cabaret, ela conhece um milionário, interpretado pelo Cary Grant, que se apaixona por ela e a oferece dinheiro. Com o dinheiro, ela embarca o marido em um navio para ir fazer um longo e caro tratamento e, enquanto isso, passa a viver, não sem culpa, com o milionário. Quando o marido retorna, ela tenta voltar para ele, mas, ao descobrir a verdade, ele não consegue aceitá-la, só que ele não vai deixá-la partir levando o seu filho com ela.

Há algo no filme que lembra “Anna Karenina”, a infidelidade que coloca em risco não só o matrimônio, mas a própria maternidade e, logo, a própria identidade, a própria integridade da mulher. Não se preocupem, ela não se atira nos trilhos do trem, mas perdendo a função de mãe, ela se limita a seduzir homens para conseguir favores, sucesso e vive amargamente, se desfazendo em um suicídio mais lento.

Creio que “Blonde Venus” seja uma retratação. Se “O Anjo Azul” mostra, sob o ponto de vista masculino, a mulher como o verdadeiro demônio, capaz de destruir a vida de um homem sábio e honesto, “Blonde Venus” mostra, sob o ponto de vista feminino, que a felicidade plena da mulher ocorre não quando ela conquista (ou destrói) um homem, mas quando ela é esposa e, mais importante, mãe.