A Caverna 3D
Não cometo o erro de zombar de novas tecnologias no cinema. Toda nova tecnologia é uma ferramenta extra. Se o resultado é ruim, é culpa do modo com que a ferramenta foi utilizada, e não da própria ferramenta. Se os primeiros filmes sonoros eram precários, não era por culpa do advento do som, mas da capacidade e do domínio então limitados do equipamento. Por isso, não menosprezo o 3D. Acho que estamos no começo e que muitos filmes não só não souberam explorar suas melhores características como fizeram justamente o oposto do que deveriam.
“A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, documentário em 3D do Werner Herzog, é a redenção do 3D. Meses atrás, Herzog esteve em São Paulo e declarou, como muitos, odiar a tecnologia. Mas há um motivo para tal ferramenta neste filme. A caverna retratada contém pinturas rupestres de mais de trinta mil anos e que só podem ser “sentidas” da mesma forma em que foram concebidas, tridimensionalmente. Há, portanto, um propósito narrativo, uma razão estilística, na ferramenta do 3D, e não simplesmente objetos aleatórios sendo lançados contra a platéia.
Herzog descobriu isto: O verdadeiro potencial do 3D não é a capacidade de atirar coisas para fora da tela, mas de atrair e convidar o espectador para dentro dela, a capacidade de se criar uma profundidade de campo que faria Orson Welles chorar.
Mas, claro, estamos no começo. Às vezes, o filme sofre com a escuridão dos próprios óculos 3D, os cantos da tela perdem definição em nome da profundidade central, mas é só o começo. E é um começo magnífico.