Arte e Moralidade

Mais um trechinho de Beauty, traduzido rapidamente. Sobre arte e moralidade:

“Durante o século XIX surgiu o movimento da ‘arte pelo bem da arte’: l’art pour l’art. As palavras são de Théophile Gautier, que acreditava que se a arte deveria ser valorizada por ela mesma, então deveria desprender-se de todos os propósitos, inclusive o da vida moral. Uma obra de arte que moraliza, que tenta melhorar sua audiência, que descende do pináculo da beleza pura em nome de alguma causa social ou didática, ofende a autonomia da experiência estética, trocando valores intrínsecos por instrumentais e perdendo seja lá qual direito que poderia ter a beleza.

É certamente um fracasso quando uma obra de arte está mais preocupada em passar uma mensagem do que maravilhar sua audiência. Obras de propaganda, como as esculturas realistas socialistas do período soviético ou (seu equivalente na prosa) Quiet Flows the Don, de Mikhail Sholokhov, sacrificam a integridade estética pelo politicamente correto, o personagem pela caricatura, e o drama pelo sermão. Por outro lado, parte do que rejeitamos em tais obras é sua qualidade insincera. As lições lançadas a nós não são obrigadas pela história ou ilustradas em figuras e personagens exagerados; a mensagem da propaganda não faz parte do significado estético, mas é alheio a ele – uma intrusão do mundo diário que apenas perde convicção quando forçada a nós em meio à contemplação estética.

Em contraste, há obras de arte que contém mensagens morais intensas em estruturas esteticamente integradas. Considere Pilgrim’s Progress de John Bunyan. A defesa da vida cristã é aqui incorporada em personagens esquemáticos e alegoria transparente. Mas o livro é escrito com tamanha urgência e tamanha sinceridade para com o peso das palavras e a seriedade do sentimento, que a mensagem cristã se torna uma parte integral, retratada de forma bela com palavras convincentes. Encontramos em Bunyan uma unidade de forma e conteúdo que nos proíbe de dispensar a obra como um mero exercício em propaganda.

Ao mesmo tempo, mesmo enquanto admiramos Pilgrim’s Progress por sua sinceridade, podemos rejeitá-lo por suas crenças de fundo. Bunyan está mostrando a realidade vivida do discipulado cristão, e ateus, judeus e muçulmanos podem encontrar verdade na história – verdade para a condição humana e para o coração de alguém que teve um vislumbre, em sua vida de desordem, da esperança de um mundo melhor. Tampouco a moralização de Bunyan ofende, já que emerge de experiências capturadas honestamente e confessas de forma vívida.

Obras de arte estão proibidas de moralizar, apenas porque moralizar destrói o verdadeiro valor moral que está na habilidade de abrir nossos olhos para os outros, e de disciplinar nossas simpatias para a vida como ela é. Arte não é moralmente neutra, mas possui a sua própria forma de propor e justificar declarações morais. Ao suscitar simpatia onde o mundo se recusa, um artista pode, como Tolstói em Anna Karenina, opor os laços de uma ordem moral muito restrita. Ao romancear personagens que não merecem tal tratamento, um artista pode também, como Berg (e Wedekind) em Lulu, reforçar o narcisismo e o egoísmo com um apelo enganoso. Muitas das faltas estéticas ocorridas na arte são faltas morais – sentimentalismo, insinceridade, auto-retidão, e mesmo moralização. E todas elas envolvem uma deficiência nessa sinceridade moral pela qual, na última seção, eu elogiei o ciclo insuperável de canções de Schubert.”


Flores Plásticas

Minha resenha sobre o novo filme do Zhang Yimou, com o Christian Bale, aqui.


Piadas de lado

Mais um trecho de Beauty, do Roger Scruton. Sobre Duchamp e crítica de arte:

“Um século atrás, Marcel Duchamp assinou um urinol com o nome ‘R. Mutt’, batizou de ‘La Fontaine’ e o exibiu como uma obra de arte. Um resultado imediato da piada de Duchamp foi precipitar uma indústria cultural dedicada a responder a questão ‘O que é arte?’. A literatura desta indústria é tão tediosa quanto as imitações infinitas do gesto de Duchamp. Mesmo assim, deixou um resíduo de ceticismo. Se qualquer coisa pode ser arte, qual é o objetivo ou mérito de se obter tal categoria? Tudo que resta é o fato curioso mas sem justificativa de que algumas pessoas olham para algumas coisas e de que outras pessoas olham para outras coisas. Com relação a sugestão de que exista uma tentativa de criticismo, que procura valores objetivos e monumentos duradouros do espírito humano, isto é dispensado de cara, dependendo de um conceito de obra de arte que desceu pelo cano da ‘fonte’ de Duchamp.

O argumento é abraçado fervorosamente, porque parece emancipar as pessoas do fardo da cultura, dizendo a elas que todas aquelas obras-primas veneráveis podem ser ignoradas com impunidade, que novelas de televisão são ‘tão boas quanto’ Shakespeare e que Radiohead é igual a Brahms, já que nada é melhor do que coisa alguma e todos os clamores por valor estético são vazios. O argumento, portanto, se enquadra com as formas de relativismo cultural da moda, e define o ponto pelo qual cursos universitários de estética tendem a começar - e freqüentemente não como o ponto no qual terminam.

Há uma comparação útil com piadas a ser feita aqui. É tão difícil circunscrever a classe das piadas como é a classe das obras de arte. Qualquer coisa é uma piada se alguém diz que é. Uma piada é um artefato feito para se rir. Pode falhar em sua função, sendo no caso uma ‘piada sem graça’. Ou pode executar sua função, mas de forma ofensiva, neste caso, uma ‘piada de mau gosto’. Mas nada disto implica que a categoria das piadas é arbitrária, ou que não existe uma distinção entre piadas boas e piadas ruins. Tampouco que não existe lugar para o criticismo de piadas, ou para o tipo de educação moral que tem um senso apropriado de humor como meta. De fato, a primeira coisa que precisamos aprender, ao considerar piadas, é que o urinol de Duchamp foi uma - muito boa quando contada pela primeira vez, boba na vez das caixas de Brillo de Andy Warhol, e completamente estúpida hoje.”


Beauty

Estou lendo Beauty, do Roger Scruton e resolvi traduzir um trecho (sem muito cuidado, desculpem) e publicar aqui para quem interessar. Estou fazendo pós-graduação de jornalismo cultural e, por todas as matérias, nos indicam autores marxistas, os conceitos de arte são subjetivos, etc… Isso me confunde porque, se tudo é válido, se eu não posso realmente afirmar com objetividade que algo é bom ou que não é arte, qual é a função da crítica? No trecho em questão, Scruton diz que não, que algumas coisas possuem sim valores universais e atemporais (e isso me consola muito):

“…Seria ingênuo abordar o assunto da estética como se a tradição marxista não tivesse desempenhado um papel em defini-lá. Versões da crítica marxista ocorrem em Lukács, Deleuze, Bourdieu, Eagleton e muitos outros, e continuam a exercer sua influência nas humanidades, a medida que são estudados em universidades inglesas e americanas. E em todas versões, essa crítica apresenta um desafio. Se não podemos justificar o próprio conceito da estética, exceto como ideologia, então o julgamento estético não possui base filosófica. Uma “ideologia” é adotada por sua utilidade social ou política, não pela sua verdade. E mostrar que algum conceito - santidade, justiça, beleza, que seja - é ideológico é prejudicar sua reivindicação por objetividade. É sugerir que não existe santidade, justiça ou beleza, mas apenas a crença nestas coisas - uma crença que surge sob certas relações sociais e econômicas e que desempenha um papel em pavimentá-las, mas que desaparecerá quando as condições mudarem. Em resposta, devemos transferir o ônus da prova. É verdade que a palavra “estética” surgiu como é usada hoje no século XVIII; mas seu propósito era se referir ao humano universal. As questões que eu tenho discutido neste livro foram discutidas em outros termos por Platão e Aristóteles, pelo escritor sânscrito Bharata dois séculos depois, por Confúcio e em Anacletos e por uma longa tradição de pensadores cristãos de Agostinho a Boécio, passando por Aquino, até os dias presentes. As distinções entre meios e fins, entre uso e significado são todas indispensáveis ao raciocínio prático, e não estão associadas a uma ordem social em particular. E mesmo que a idéia da natureza como um objeto de contemplação tenha obtido uma proeminência especial na Europa do século XVIII, não é de forma alguma única  daquele lugar e tempo, como sabemos da tapeçaria chinesa, dos blocos de madeira japoneses, e dos poemas dos confucianos e de Basho. Se você quiser dispensar o conceito de estética como um produto da ideologia burguesa, então o ônus está com você ao tentar descrever a alternativa não-burguesa, na qual a atitude estética seria de alguma forma redundante, e na qual as pessoas não precisariam mais encontrar conforto na contemplação da beleza. Esse ônus nunca foi dispensado. E nem poderia ser.”


Agressão e Sensibilidade

Resenha de “Plano de Fuga”, filme com Mel Gibson que estreia hoje, no blog da Dicta.


As Dores do Amor

Texto meu sobre Buster Keaton no blog da Dicta, aqui.


O Direito à Dúvida

Minha resenha de “Conspiração Americana”, filme dirigido pelo Robert Redford, aqui.


Muito Além do Mito

Texto meu sobre Marilyn Monroe e “Sete Dias com Marilyn” no blog da Dicta, aqui.


A Perseguição e os Machos Alfas

Minha resenha de “Perseguição”, filme com Liam Neeson, aqui.


Sergio Leone

Vou mediar um bate-papo com Joel Pinheiro e Marçal Aquino sobre o diretor Sergio Leone. É na terça-feira, 17/04, às 19:30, na Livraria da Vila da Al. Lorena, n. 1731, São Paulo. Estão todos convidados.